
Não sou um órfão da ditadura, daqueles que sentem falta de uma repressão pra poderem se rebelar ou de uma MPB mais questionadora, apenas senti vontade de analisar três filmes com uma temática em comum, e dessa forma, pensei nos filmes "O que é isso, companheiro?", dirigido por Bruno Barreto de 1997, "Zuzu Angel", Sérgio Rezende de 2006, e "O ano em que meus pais saíram de férias", Cao Hamburger de 2006.
Em termos fotográficos "Zuzu Angel" deixa a desejar, a filmagem não parece ser de cinema, mas sim de televisão, com o agravante de haverem efeitos gráficos rudimentares que somado à narrativa, por vezes desnecessária, faz o filme parecer amador, diferente do ocorre em "O ano em que meus pais saíram de férias", em que a narrativa e a construção imagética fazem o filme ser muito rico.
"O ano em que meus pais saíram de férias" chama atenção para suas “metáforas” criadas por meio da associação textual e visual, que corroboram com a representação da sociedade da época, como por exemplo a torcida dos jovens comunistas pela Tchecoslováquia no primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo de 1970, mostrando o conflito ideológico que atingia a todos em uma sociedade onde "tudo" era "luta política".O desenvolvimento de "Zuzu Angel" também deixa a desejar, pois as personagens centrais da história (Zuzu e Stuart) são heroicizadas em demasia, induzindo o interlocutor a uma concepção política, dessemelhante ao "O que é isso, companheiro?", onde o roteiro expõe ao espectador a ideologia dos dois lados conflitantes da época, abrindo espaço, dessa maneira, para que o interlocutor forme sua opinião de acordo com sua concepção política.
Enquanto “Zuzu Angel” cai em discursos embasados no senso comum, "O que é isso, companheiro?" apresenta diálogos mais corajosos, nos quais vários tabus são colocados em dúvida, como por exemplo, a intencionalidade da guerrilha ou a “lucratividade” da tortura, quem saí beneficiado torturador ou torturado?
O filme também questiona a validade dos movimentos adversos ao Regime Militar, questionamento que também aparece nos outros dois longas, uma vez que tais movimentos não tinham apelo popular e que o governo conseguiu se consolidar de forma coesa. Na produção de Sérgio Rezende, a protagonista a caminho da delegacia indaga sua filha: “E agora? Onde está o povo por quem ele luta?”, se referindo ao discurso ideológico bradado por Stuart, seu filho, questionamento esse válido e estudado por Elio Gaspari em “A Ditadura envergonhada”, onde, segundo o autor, a ditadura terminaria, ou terminou, apenas quando os militares achassem, ou achou, necessário; os movimentos anti-ditadura eram fracos e raros, permitindo ao governo o controle total da situação.Em matéria de documentação histórica recomendo os três filmes, pois acrescentam muito ao nosso conhecimento, expandem nossos horizontes diante do que aprendemos sobre a Ditadura Militar do Brasil. No entanto, em termos cinematográficos aconselho as produções de Bruno Barreto e Cao Hamburger, obras mais completas e bem dirigidas.
Desejo a vocês uma ótima sessão! =)
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