segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Dona Onda é sequestrada por "seu" Boaventura

"Seu" Boaventura já era velho, caminhava inseguro, seus olhos pretos como uma jaboticaba eram baixos e suas pálpebebras o tapavam pela metade como duas cortinas velhas, sua cara era branca assim como seus pêlos.
Dona Onda também era velha, completara naquele mês oitenta e nove anos, tivera muito vigor quando jovem, muitos diziam que ela prevera instintivamente seu destino e por isso aproveitara muito bem sua mocidade. Aos dezoito anos, dois meses antes de casar-se, lembro-me agora caros leitores que esqueço-me de dizer-lhes dessa festividade. Dona Onda fora prometida a Sr.Roberto Mansur, ele era um microempresário, à poucos criara uma confecção de cobertores em uma cidadela próxima, fora falir dez anos após, Sr. Mansur era tio de Dona Onda, ficara viúvo muito cedo, quando sua noiva tinha apenas sete anos, foi quando "seu" Joaquim, pai de Dona Onda, prometera a filha ao irmão, que concordara em esperar a maior idade de sua futura esposa para que se fizesse o matrimônio.
Mas o que se sucede é que Dona Onda dois meses antes de sua união ao tio ficara cega, por causa de sua diabetes, ela a tinha e não sabia, o que se foi possível descobrir apenas com sua cegueira.
Com sua doença Sr. Mansur a abandonara e por muitos anos ficara aos cuidados de seu pai. Ao passar do tempo seus irmãos foram se arranjando e a esquecendo junto a seu pai, que agora dependia de seus cuidados e chegara poucos anos depois ao óbito.
Quando completou setenta e cinco anos adotara "seu" Boaventura, que nesta época era só Boaventura, tornaram-se amigos incondicionais, sempre estavam juntos. Boaventura a guiava pelas novas ruas da cidade, havia grande cumplicidade entre eles.
À poucos dias Dona Onda decidiu voltar à um cume de uma colina onde sempre ia quando sentia-se mal, a trilha para chegar-se lá era próxima e a lembrança a incitava, o cheiro de terra molhada, o orvalho sobre as árvores, Dona Onda precisava ter novamente aquela sensação.
No outro dia, bem no início da manhã Dona Onda e "seu" Boaventura, pois agora já se chamava assim, foram pegar a trilha, "seu" Boaventura não tinha mais vitalidade de antes já era um pobre animal velho e subia a trilha aos choros e ganidos, Dona Onda dizia:"Vamos, 'seu' Boaventura, eu sei que o senhor consegue!" e dava-lhe um biscoito.
Chegara uma hora que o frágil coração de "seu" Boaventura viera a falhar e em um último ganido veio à falecer. Dona Onda sem entender agachou-se, e acariciando o velho labrador dizia:"Cansou-se, já? Vamos amigão, levante-se!".
Ao fim do dia Dona Onda sente o cheiro de terra molhada, e aos poucos a água da chuva escorria em seus lábios, seu rosto e pela sua pele, foi quando surgira em seu peito uma grande felicidade que aos poucos foi rendendo-a ao sono, do qual nunca mais acordara.